Bahia

Festa literária

"Se a gente não reconhecer as que vieram antes, a gente não chega a lugar nenhum", Lívia Natália

Em entravista ao Brasil de Fato, escritora Lívia Natália, um dos destaques da FliLençóis, fala sobre literatura e mais

Salvador |
Lívia Natália é um dos destaques da FliLençóis que começa nesta quinta-feira (07) - Maria Fulô

A primeira edição da Festa Literária de Lençóis (FliLençóis) acontece de 7 a 9 de setembro na Chapada Diamantina e promete movimentar a cidade. Conectando-se com a ancestralidade e os múltiplos saberes, o grande destaque do evento é para os mestres e mestras Griôs que movimentam a cultura da região. A ideia é também promover um grande encontro de manifestações culturais presentes no território da Chapada.

O patrimônio histórico e cultural de Lençóis é fundamental para a preservação da memória, e é nesse aspecto que o evento visa discutir a literatura para além da cultura escrita, mas também na preservação da cultura da oralidade no qual se preserva grandes histórias, essenciais para a formação da memória da região.

A expectativa é grande pela estreia da FliLençóis, nessa cidade histórica, tombada como patrimônio do Brasil pelo IPHAN. Nomes potentes da Bahia já garantiram presença no encontro. Na Conferência de abertura:  Narrativas poéticas, estéticas e éticas: a literatura como possibilidade de imaginar outros mundos, o debate se dará em torno dos homenageados dessa edição, Gagum e Dom Obá. A mesa vai debater também a literatura como possibilidade de discutir o Brasil profundo.

O Brasil de Fato Bahia entrevistou a poeta, escritora e professora de Literatura da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Lívia Natália, um dos nomes confirmados no evento.

Brasil de Fato – Vocês estará na Conferência de abertura da FliLençóis. Qual a relevância dessas Festas Literárias espalhadas pela Bahia, em especial, essa, em Lençóis?
Lívia Natália - A cada festa literária se afirma a força de nossa cultura, principalmente as culturas de cada local. Nossas festas são feitas não apenas com escritores famosos da literatura brasileira, mas, já há muito, se compreendeu que os artistas locais fazem a festa e fazem com que cada uma delas tenha tanto vigor a cada ano!

Narrativas poéticas, estéticas e éticas: a literatura como possibilidade de imaginar outros mundos. Aproveitando esse mote da mesa, a literatura pode mudar no mundo?
Pode. Acredito piamente na cultura, em ampla visão, e, na literatura, especificamente. Das coisas mais lindas que se pode almejar é ser autora de um livro preso numa biblioteca escolar, ou daquelas que a comunidade organiza, num sebo e, de repente, uma mão, estrangeira, lhe alcança e te leva, te lê. Milênios, digamos, depois, a notícia dessa leitura chega no mundo, decide, interfere, enriquece. Enriquece o mundo e o mundo de quem lê, antes de tudo!

Gagum e Dom Obá são os homenageados dessa edição. Pode nos falar sobre eles?
Estou, junto com quem não conhece esses importantes nomes de Lençóis, aprendendo que Gagum, escritora e professora lençoense, deixou rico legado para a sua comunidade sendo postumamente reconhecida e dando, assim, nome ao Mercado Municipal de Lençóis. Dom Obá, cujos fundamentos ancestrais remontam ao Alaafin Abiodun, foi o último soberano do Reino de Oyó, foi um grande abolicionista e defensor da igualdade racial. Como disse, estou aprendendo, principalmente, com Samira Soares, lençoense e uma das curadoras dessa festa.
 
A literatura nos lança frente a frente com muitas possibilidade de narrativas. Com uma identidade poética muito forte, a poesia é o seu gênero literário preferido? O que a poesia tem de mais tocante para você?
A poesia tem de incrível, para mim, a possibilidade parecer traduzir um sentimento, um pensamento e, finalmente, manter, dentro da gente, o mistério em aberto, intransponível em palavras. E isso serve para quem lê e para quem é lido

Água Negra e Outras Águas foi publicado, originalmente, em 2011, e foi o seu livro de estreia. O que te fez decidir por publicar as suas poesias?
Na verdade, não foi uma decisão. A poesia me perseguiu e me obrigou. Até hoje eu obedeço.

Em pouco mais de dez anos do primeiro livro publicado, hoje, você já tem cinco obras lançadas no mundo. Como é o seu processo criativo de escrita?
Rigoroso, mas não disciplinado. Não escrevo todos os dias, escrevo muito em papel, por isso guardo todos os meus cadernos e os impressos em A4 dos livros. Quando estou mais perto de fechar um livro, vira obsessão pura, não como, durmo o que dá, e escrevo e reescrevo. Entre um livro e outro gosto de esquecer um pouco da poesia, mas ela insiste!

Como o feminismo negro se serve da literatura e vice-versa?
Para mim, para o feminismo negro chegar na literatura, ele precisou passar pelos navios negreiros, pelas senzalas, pelas favelas, mesas e rodas de samba…sabe? Daí, andando pelas favelas, nos ônibus lotados, aguentando desaforo de patrão, minha mãe, nossas mães, nossas mais velhas sustentaram a família toda e, hoje em dia, a gente dá nome de feminismo negro. A mesma coisa com a nossa literatura de mulheres negras, se a gente não reconhecer as que vieram antes, a gente não chega a lugar nenhum.

Quais autoras e autores você tem lido ultimamente? Alguma dica de leitura? Algum livro permanente de cabeceira?
Audre Lorde, Conceição Evaristo, Lubi Prates. Lorde, sempre! Afora estas, as da nova geração: Gonesa Gonçalves, Patrícia Maria, Bruna Mitrano, citar é difícil porque esquecer é sempre ruim, uma gafe feia…Jorge Augusto, Cuti, Lande Onawale… recomendo a leitura, a larga, sempre, de tudo!

Edição: Gabriela Amorim